Atualmente falar sobre letramento
não é novidade. Alfabetizar letrando é um tema que está presente nas conversas
de professores, literatura especializada, mídia e programas do governo em
geral. Na verdade, se cada alfabetizador estivesse convencido de que a leitura
e a escrita são práticas sociais, não seria necessário o debate sobre
alfabetizar e letrar, pois nessa perspectiva, os dois conceitos são
indissociáveis. O professor que trata a língua como algo vivo e presente em
todos os meios sociais não consegue visualizar essa ruptura. O que acontece é
que, durante muito tempo, a escola concebeu o conhecimento como algo estanque e
totalmente dissociado da realidade do bairro, da cidade, dos alunos, das
famílias, da vida em geral. Em que outro local, além da escola, vão pedir a
você que fique completando palavras com s ou z, sentado, passivamente, durante
horas? Em que empresa solicitarão que você passe o dia todo copiando algo (que
pode ser facilmente lido e acessado na internet) com letra bem bonita? E,
inevitavelmente, em que livro, de qual autor relevante, que escreva para
crianças, você poderia ler o texto a seguir:
O milho
O milho é
amarelo e tem palha.
Julho colheu
milho e deu ao seu filho.
O filho de Julho
comeu o milho.
(Autor?)
(Fica a dúvida: a grafia do
substantivo próprio “Julho” com lh é intencional ou o autor do texto não sabe
que julho, com lh, é o nome do sétimo
mês do ano?).
Bem, em plena era da internet, com
todos os livros maravilhosos e recursos disponíveis para ensinar a ler e escrever,
alguns professores ainda escolhem (ou escrevem?) esse tipo de texto surreal
apenas para “fixar” uma letra ou “dificuldade” ortográfica– no caso, devia ser
o LH. Esse exemplo é radical, mas ilustra uma prática que ainda persiste no
cotidiano escolar. Alguns educadores utilizam os chamados pseudotextos,
resquícios do método fônico, o qual concebia a língua escrita como transcrição
fiel da fala, reduzindo o ensino e a aprendizagem da mesma a questões
mecânicas, sem reflexão, objetivando basicamente a “decifração do código
linguístico” (como se a língua fosse um simples código a ser decifrado).
Esse tipo de texto, além de
inadequado, é totalmente desnecessário. Se o objetivo do professor era
trabalhar palavras com LH, poderia ter utilizado o poema de Cecília Meireles:
BOLHAS
Olha a bolha d'água
no galho!
Olha o orvalho!
no galho!
Olha o orvalho!
Olha a bolha de vinho
na rolha!
Olha a bolha!
na rolha!
Olha a bolha!
Olha a bolha na mão
que trabalha!
que trabalha!
Olha a bolha de sabão
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha
Olha a bolha!
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha
Olha a bolha!
Olha a bolha
que molha
a mão do menino:
que molha
a mão do menino:
A bolha da chuva da calha !
Cecília Meireles
O poema de Meireles é rico em rimas e significados. Fica evidente que
privilegiar textos desse tipo significa abrir um leque de possibilidades para
ensinar. Acontece que as escolhas que fazemos dependem muito das concepções que
temos a respeito do ensino e da aprendizagem, bem como a seleção do material
utilizado nas aulas e sua consequente exploração.
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