O príncipe e o mendigo
Bruno Medina
Ficar trancado do lado de fora de casa, quem nunca? Pois foi
o que me aconteceu nesse último final de semana, na infeliz ocasião em que
resolvi levar para fora duas sacolinhas de lixo sem ter a chave no bolso.
Confirmando as estatísticas que indicam que o momento mais perigoso de uma
viagem consiste em quando o motorista relaxa ao perceber que se aproxima do
destino final, eu também não considerava o risco à espreita no percurso de
aproximadamente 20 metros que separam a lixeira, dentro da minha cozinha, do
ponto de coleta de lixo, do outro lado da rua. A bem da verdade, seria um
sábado à tarde como outro qualquer, fadado ao esquecimento, não fosse por
aquele vento perverso – um que nunca antes havia dado o ar de sua graça,
diga-se – que numa só lufada bateu a porta de maneira impiedosa, sem me
oferecer qualquer chance de resistência.
Reparem que, num instante, eu era o senhor absoluto da
situação, um príncipe em seu próprio castelo, que apenas deixou por uns
segundos seu trono (poltrona em frente à TV), onde desfrutava de merecido
descanso, para dedicar-se à banal porém necessária tarefa de manter sua
propriedade em dia com a limpeza. Ao passar por aquele portal, no entanto, como
num passe de mágica de uma feiticeira má, o príncipe tornou-se mendigo;
desprovido de coroa e cetro (carteira e celular), objetos que o definem e que
são imprescindíveis à sua existência, o príncipe aqui foi literalmente atirado
na sarjeta, sem um tostão no bolso, trajando chinelos, bermudas e camiseta de
bloco de Carnaval.
Em circunstâncias como essas, a primeira coisa que nos
ocorre, claro, é pedir ajuda a um ente próximo, certo? Bastaria então arrumar
um telefone e ligar para algum amigo ou parente, e em poucos minutos, essa
caridosa alma viria ao meu socorro, trazendo a solução na forma de chave
reserva ou de chaveiro profissional. Poucas são as situações que hoje em dia
evidenciam nossa visceral dependência da tecnologia, afinal, como entender o
mundo sem ela se ela está em todo lugar?Portanto imaginem qual não foi minha
surpresa ao constatar que o plano de resgate elaborado já havia ido por água
abaixo antes mesmo de ter sido posto em prática: não havia como pedir ajuda a
quem quer que fosse, visto que não sei mais de cabeça o telefone de ninguém.
Vou repetir, caso não tenha ficado claro o suficiente: sem poder contar com a
providencial assistência deste genial e ao mesmo tempo diabólico aparelho que
levamos no bolso, que centraliza todos os aspectos essenciais não só da minha
como de tantas outras vidas, eu não conseguiria sequer falar com a minha mãe!
Por sorte, além do telefone de uma empresa de dedetização e
dos classificados do jornal 'O Globo' – repetidos como mantras há anos em suas
respectivas propagandas – restava um último número anotado a lápis dentro da
gaveta do cérebro, antes reservada para armazenar contatos telefônicos, mas
agora, provavelmente, a serviço de registrar as dezenas de senhas e logins que
controlam nosso acesso a todas as coisas. Era o telefone fixo dos meus pais, da
casa em que por tantos anos morei, o mesmo número desde 1989, um verdadeiro
porto seguro neste mundo em que tudo muda constantemente. Do outro lado da
linha atendeu meu irmão, que não sabia o paradeiro da chave extra da minha
casa, mas que tinha certeza de que meus pais almoçavam naquele restaurante de
sempre, em Ipanema. Que outra alternativa me restava senão entrar num táxi e ir
pra lá, torcendo muito para que, além de realmente estarem onde eu pensava,
tivessem levado a minha chave e também algum dinheiro a mais para pagar a
corrida, e assim evitar que eu apanhasse do taxista.
A caminho do lugar, tive tempo suficiente para refletir sobre
a estranha sensação de ter sido expulso da minha própria vida: eu não podia voltar
para casa, não dispunha de dinheiro ou documentos e sequer tinha como entrar em
contato com as pessoas que deveriam me ajudar. Para encurtar a história, tudo
deu certo e, em pouco mais de uma hora, eu já estava de volta ao meu castelo,
procurando no Google o telefone de um chaveiro 24 horas para ter anotado na
carteira e compartilhando por mensagens o enfadonho incidente. Moral da
história? Esqueça a senha do Facebook, melhor guardar na sua memória o telefone
das pessoas que você ama. Ah, e quando entrar num táxi sem ter como pagar,
certifique-se de que você tem condições mínimas para correr ou encarar o
motorista...
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