quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ampliando a leitura e escrita de textos





         Entendendo a alfabetização como um processo dinâmico e singular de cada indivíduo, no qual saber ler e escrever são habilidades amplas, pensamos em alfabetizar e letrar não só no decorrer do 1º ano, mas sempre. No entanto, quando os alunos estão conseguindo ler textos curtos, quando demonstram que o processo de compreensão acerca da língua escrita atingiu o nível alfabético (o esperado e desejado é que ao iniciar o 2º ano a maioria dos alunos de sete anos esteja nesse nível) a mediação do professor é indispensável para consolidar aprendizagens já construídas e ampliar gradativamente as habilidades e competências necessárias à formação de leitores e escritores competentes e autônomos. Ou seja, o aluno lê, escreve, mas ainda apresenta em sua escrita muitos erros ortográficos, não conhece e por isso não utiliza a pontuação adequada nas produções, alguns podem até sentir-se inseguros e incapazes de escrever um bom texto. Quando o professor ignora essas necessidades de aprendizagem, cria uma lacuna na vida das crianças, uma deficiência, que mais tarde será constatada, na pior das hipóteses, ao final do 4º ou 5º ano (para desespero dos outros educadores).
         Dessa forma, se durante a alfabetização os diversos tipos de textos são explorados no sentido de aproveitá-los ao máximo em situações específicas de alfabetização, nos demais anos é imprescindível avançar: localizar informações explícitas e implícitas no texto, compreender, interpretar, identificar as idéias principais e secundárias, no que tange à leitura. Na escrita, produzir textos coerentes, atentando não só para a grafia convencional das palavras e pontuação, mas compreendendo que cada tipo de texto tem uma finalidade, um estilo, um objetivo. Escrevo uma notícia para informar, divulgar; uma história em quadrinhos para divertir, entreter; uma fábula para ilustrar uma moral, um ensinamento. Parece simples, pode ser simples, mas precisa ser cuidadosamente pensado e planejado para funcionar. Então, mãos à obra!




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Lendo para nossos alunos





         A leitura feita pelo professor para seus alunos constitui um momento singular e precisa ser adotada diariamente. Ao ler para uma criança, estamos ensinando pelo exemplo. Não é preciso “fazer um carnaval”, inventar vozes ou utilizar recursos mirabolantes (apesar de existirem contadores de histórias natos e professoras artistas): basta selecionar textos interessantes, que estimulem a imaginação, a curiosidade, adequados à faixa etária da turma. Além de contos de fadas e fábulas, ler notícias, anedotas, histórias de humor e, é claro, poesia. Podemos e devemos mostrar para as crianças que a leitura não é uma atividade chata, não é uma obrigação ou algo que não está relacionado às suas vidas. A leitura transforma-se, nessa perspectiva, em  hábito desejável e indispensável.
         Há pessoas viciadas em leitura, que não passam um dia sequer longe dos livros. O desafio do professor dos Anos Iniciais é despertar esse vício: a leitura como algo prazeroso, incorporada à vida de tal forma que é impossível deixar de ler. Explorar o livro, valorizar as ilustrações, provocar as crianças, antes de lê-lo, a imaginarem a história, os personagens... Apenas o educador encantado pelas palavras consegue encantar seus alunos. Portanto, muito cuidado ao selecionar os textos destinados à leitura: se eles não despertam seu interesse, curiosidade e imaginação, dificilmente o farão quando forem lidos para a turma. Ter sensibilidade para perceber que tipo de livro, que temas ou assuntos provocarão aquelas carinhas de espanto, de riso, de satisfação nos pequenos. Ler para encantar, para embarcar em outra história, conhecer mundos, dialogar com os personagens... Nada mais que isso.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Lendo e produzindo cartazes



Lendo e produzindo cartazes

            No ano de 2013, a vencedora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, professora Elisangela Carolina Luciano, da escola EMEF Adirce Cenedeze Caveananah (Mogi Guaçu - SP), desenvolveu um projeto simples e levou uma das premiações mais disputadas no país. O que ela fez? Realizou um trabalho extremamente significativo para alfabetizar seus vinte e três alunos. Organizou um passeio tendo como objetivo que as crianças observassem as escritas que apareciam na ruas, nas placas, nas lojas. Chegando até uma quitanda, viram pequenos cartazes (placas) que informavam os preços dos produtos. As crianças elaboraram listas nas quais constavam legumes, verduras e frutas vendidos no estabelecimento. De volta à escola, o desafio era pesquisar o valor nutricional de cada alimento e produzir uma frase sobre ele. Resultado: a turma produziu placas com informações relevantes, fruto da pesquisa e construção coletiva, enriquecidas com imagens coloridas e atraentes. Essas placas foram levadas até a quitanda, colocadas nas bancas e, obviamente, lidas pelos clientes do comércio. O projeto resultou em aprendizagem dos alunos, que estavam escrevendo algo que seria lido. O trabalho dessa professora foi selecionado não só porque através do projeto a turma se alfabetizou, mas porque nesse processo ficou evidenciada a intencionalidade da escrita (informar as pessoas a respeito do preço dos vegetais e dar ainda informações adicionais sobre o valor nutritivo deles).
          As escolas, principalmente públicas, estão inseridas num contexto rico e diversificado, sujeito a conflitos e situações que precisam ser explorados.  Inevitavelmente, em muitas ocasiões, preferimos ignorar os conflitos, evitando problematizações e perdendo a chance de efetivamente considerar a realidade do educando. Fechamos os olhos e permanecemos no discurso bonito, que não repercute em nossa prática.
          Por exemplo, podemos notar nas escolas questões relativas à depredação dos prédios, classes riscadas, paredes pichadas, lixo acumulado no pátio, banheiros sujos (problemas causados, muitas vezes, pelos próprios alunos). O professor atento enxerga nessa realidade uma possibilidade de problematização, de conscientização e de construção do conhecimento. Isso pode ser feito com crianças de seis, sete anos de idade. Sabemos que as gerações estão chegando à escola cada vez mais espertas, ativas e desafiadoras. Por que não discutir os problemas que a escola enfrenta, comumente provocados pelos próprios alunos, e elaborar, já na alfabetização, cartazes que sirvam de alerta, de aviso, mas, sobretudo, que provoquem a reflexão e superação de conflitos?
           Para tanto, faz-se necessária a leitura e análise de cartazes que circulam na escola e no meio em que as crianças vivem: campanhas do governo, como por exemplo, a de vacinação, são amplamente divulgadas através de cartazes; festas do bairro, da cidade, também; bazares, feiras e eventos utilizam igualmente esse recurso. As crianças precisam compreender que o cartaz tem uma linguagem própria e que apesar de simples, deve chamar a atenção do leitor. A Provinha Brasil, realizada pelos alunos do 2º ano dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, geralmente traz questões de leitura e compreensão de cartazes, ressaltando a importância e finalidade desse tipo de texto.
           Enfim, ler e produzir cartazes com os alunos pode ser um meio de colocar em prática a tão desejada educação crítica e problematizadora.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Avisos, bilhetes, email e convites





           Avisos e bilhetes são textos curtos e simples, que têm como objetivo avisar ou informar alguém sobre uma reunião, evento, assunto, acontecimento ou, ainda, dar um breve recado. Em minha opinião, os bilhetes que a direção da escola envia aos pais dos alunos poderiam ser produzidos pelas crianças, num processo coletivo de construção da escrita. Mas, como nem sempre isso é possível, o educador atento deve aproveitar toda e qualquer situação que possibilite a escrita e leitura de avisos e bilhetes. As crianças podem escrever bilhetes para colegas de outras turmas, sobre determinado assunto, ou ainda falando de algum problema constatado, ou tendo como motivação um evento da escola. O ideal é que a escrita circule, que o bilhete tenha um destino, seja lido. Sempre que for distribuído algum bilhete ou aviso, sua leitura precisa ser explorada, pois são textos reais e que exemplificam a função social da escrita.
         As versões modernas e muito utilizadas dos bilhetes (ou cartas) são os emails e mensagens de texto via celular. Em escolas nas quais o acesso ao laboratório de informática é possível, levar os alunos a escrever emails constitui uma atividade excelente. Para quem escrever? Para amigos, pessoas da família ou ainda entre eles mesmos. O email é uma ótima ferramenta de acesso e comunicação com crianças de outras cidades. Por que não escolher um tema e desenvolver um projeto no qual a troca de informações entre crianças que não se conhecem aconteça através do correio eletrônico? Basta contatar outra professora, de outra cidade, e fazer uma parceria. Além do mais, os alunos estarão exercitando sua cidadania, visto que muitos não têm acesso à internet em casa. E ainda, o teclado contém todo o alfabeto, com letras maiúsculas. Ao digitar, na tela podem aparecer tanto minúsculas quanto maiúsculas. Quando os alunos praticam a digitação, entram em contato com as letras e o professor pode explorar a correspondência e identificação de maiúsculas e minúsculas (no caso específico de crianças na fase inicial de alfabetização estabelecer essa relação é essencial). A tecnologia deixa de ser um “bicho-de-sete-cabeças” e passa a ser uma aliada no processo de ensino-aprendizagem.
          Outro tipo de texto a ser trabalhado nos anos iniciais é o convite: pedir que as crianças tragam convites que receberam, questionar em que situações precisamos utilizá-los e quais elementos compõem esse material, explorando e evidenciando suas características. Na sequência propor que os alunos completem convites nos quais constem os elementos estudados e que os compõem: destinatário, qual é o evento, a data, o local, a identificação da pessoa que está enviando. Ao longo do ano letivo, aproveitar as datas comemorativas e ocasiões festivas para produzir convites e enviar aos familiares: festa junina, aniversário da escola, exposições, feiras de Ciências, etc. Evitar os modelos prontos e deixar que os alunos criem a arte do convite dentro das temáticas relacionadas aos acontecimentos ou eventos promovidos pela escola. Dessa forma, estaremos contribuindo para que o aluno crie, invente, produza, e não apenas copie e reproduza, tolhendo sua capacidade e autonomia.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poesia






              A poesia, a arte de traduzir em palavras sentimentos e pensamentos, de fazer rir e chorar, de emocionar, é uma excelente forma de encantar os pequenos leitores, de mostrar que leitura é, antes de tudo, diversão e prazer. A literatura infantil no Brasil é de excelente qualidade, com ótimos autores, livros cuidadosamente produzidos, com ilustrações primorosas que atraem e fazem sorrir até mesmo o  mais sisudo dos adultos. Merece destaque o livro conhecido por todos, do grande poeta carinhosamente denominado “O poetinha”, Vinicius de Moraes: A Arca de Noé. Nele, encontramos não apenas bichos, mas os mais variados temas. Os versos da obra ficaram ainda mais populares pois ganharam versões musicais, na voz de grandes cantores brasileiros. Nada melhor do que cantar com os alunos, ler a poesia, falar sobre o autor, se divertir com as rimas. Trabalhar poesia é brincar com as palavras. Mas um brincar com objetivo. Reproduzo a seguir algumas poesias de Vinícius de Moraes e sugestões de atividades:

A  CASA

ERA  UMA   CASA
MUITO  ENGRAÇADA
NÃO  TINHA   TETO
NÃO TINHA   NADA
NINGUÉM  PODIA
ENTRAR  NELA   NÃO
PORQUE  NA    CASA
NÃO  TINHA   CHÃO
NINGUÉM   PODIA
DORMIR  NA   REDE
PORQUE  NA    CASA
NÃO  TINHA    PAREDE
NINGUÉM   PODIA
FAZER   PIPI
PORQUE   PENICO
NÃO   TINHA    ALI
MAS  ERA   FEITA
COM  MUITO   ESMERO
NA   RUA    DOS   BOBOS
NÚMERO   ZERO.
                       (Vinícius de Moraes)

            Quem nunca cantou ou ouviu essa música? Essa poesia aborda um tema que pode ser amplamente explorado nas turmas de alfabetização: a moradia. Dessa forma, conversamos sobre a casa do poema, se ela existe, se é imaginação do autor, o que tem de diferente de uma casa comum, toda aquela problematização que estamos habituados a fazer nas aulas. Desenhos, maquetes, leitura de outros poemas sobre moradia (intertextualidade) enriquecem as aulas. Há um poema de Roseana Murray que “cai como uma luva” nesse momento:

Sem casa

Tem gente que não tem casa,
Mora ao léu, debaixo da ponte.
No céu a lua espia
Esse monte de gente
Na rua como se fosse papel.

Gente tem que ter
Onde morar,
Um canto, um quarto,
Uma cama,
Para no fim do dia
Guardar o corpo cansado,
Com carinho, com cuidado
Que o corpo
É a casa
Dos pensamentos.

            Não importa que o aluno esteja no início de sua alfabetização, que ainda hesite, gaguejando na leitura. O que importa é trabalhar a leitura com significado. Nessa sequência de atividade, que parte do poema conhecido, da música divertida de Vinicius, chegamos à criação de outra autora, dentro do mesmo tema, mas com outra abordagem. Quantas perguntas, explorações e atividades podem surgir da leitura do texto “Sem casa”? Uma infinidade de aprendizagens importantes e significativas. Simples assim.

             Mas, voltando  a “Arca de Noé”. Outro poema:

A   FOCA

QUER    VER    A   FOCA
FICAR    FELIZ?
É    PÔR   UMA    BOLA
NO   SEU    NARIZ.

QUER    VER   A     FOCA
BATER    PALMINHA?
É    DAR    A     ELA
UMA    SARDINHA.

QUER   VER    A     FOCA
FAZER    UMA    BRIGA?
É    ESPETAR    ELA
BEM    NA    BARRIGA!
                         
                         VINÍCIUS DE MORAES

             Esse poema proporciona muitas explorações. O professor deve explicar que os poemas têm uma estrutura própria: são escritos em versos, rimados ou não, que se agrupam e formam estrofes. Aos poucos, as crianças podem ir identificando as estrofes, circulando cada uma com cores diferentes, contando quantas estrofes a poesia tem. Quando já estão alfabetizadas, oferecer a cópia do mesmo texto com letras diferentes (imprensa minúscula) ajuda na familiarização com as diversas representações de um mesmo símbolo. E aí vêm elas, não poderiam ficar de fora:

AS BORBOLETAS

BRANCAS
AZUIS
AMARELAS
E PRETAS
BRINCAM
NA LUZ
AS BELAS
BORBOLETAS

BORBOLETAS BRANCAS
SÃO ALEGRES E FRANCAS.

BORBOLETAS AZUIS
GOSTAM MUITO DE LUZ.

AS AMARELINHAS
SÃO TÃO BONITINHAS!

E AS PRETAS ENTÃO...
OH! QUE ESCURIDÃO!

Vinicius de Moraes

          Com o poema acima, além da poesia, podemos integrar ao trabalho outro tipo de texto: o informativo. Partindo do nome do inseto, as crianças pesquisam sobre a borboleta, desenham e produzem escritas espontâneas; atividades que podem ser estendidas aos demais poemas que tratam de animais. A leitura de fichas informativas sobre os bichos são ideais e utilizadas paralelamente, através da intertextualidade. Por exemplo, após ler o poema “O elefantinho” (de Vinícius também), procede-se à leitura e destaque das palavras, do título, do autor, passando pela identificação das estrofes,  e aí  professora introduz uma ficha com informações sobre o animal:

Ficha do bicho
Nome popular: elefante
Onde vive: África
Hábitos alimentares: herbívoro. Alimenta-se de cerca de 300kg diários de vegetais.
Tamanho:7 ou 8 metros de comprimento e 4 metros de altura.
Peso: 7500Kg
Período de gestação: 22 meses.
Tempo médio de vida: 70 anos.
(Adaptado do site www.suapesquisa.com.br)
        
            Aqui os alunos entram em contato com um tipo de texto que tem como objetivo informar sobre determinado animal. Ou seja, a finalidade dele difere da finalidade da poesia. As informações presentes nas fichas informativas proporcionam a abordagem  interdisciplinar de outras áreas do conhecimento:  Matemática (nos numerais que representam o peso, altura, tempo de gestação); Ciências (classificação dos animais quanto a alimentação, habitat, mamíferos); Geografia (localização da África no mapa do mundo). Mais adiante, as fichas informativas sobre animais serão objeto de exploração e de outros exemplos de atividades.
         O trabalho com gêneros textuais em sala de aula é isso: contextualização, interdisciplinaridade, intertextualidade, diversão e poesia, conhecimento e informação, cada qual contribuindo para formar leitores e escritores autônomos.