A poesia, a arte de traduzir em
palavras sentimentos e pensamentos, de fazer rir e chorar, de emocionar, é uma
excelente forma de encantar os pequenos leitores, de mostrar que leitura é,
antes de tudo, diversão e prazer. A literatura infantil no Brasil é de
excelente qualidade, com ótimos autores, livros cuidadosamente produzidos, com
ilustrações primorosas que atraem e fazem sorrir até mesmo o mais sisudo dos adultos. Merece destaque o
livro conhecido por todos, do grande poeta carinhosamente denominado “O
poetinha”, Vinicius de Moraes: A Arca de Noé. Nele, encontramos não apenas
bichos, mas os mais variados temas. Os versos da obra ficaram ainda mais
populares pois ganharam versões musicais, na voz de grandes cantores
brasileiros. Nada melhor do que cantar com os alunos, ler a poesia, falar sobre
o autor, se divertir com as rimas. Trabalhar poesia é brincar com as palavras.
Mas um brincar com objetivo. Reproduzo a seguir algumas poesias de Vinícius de
Moraes e sugestões de atividades:
A CASA
ERA UMA
CASA
MUITO ENGRAÇADA
NÃO TINHA
TETO
NÃO TINHA NADA
NINGUÉM PODIA
ENTRAR NELA
NÃO
PORQUE NA
CASA
NÃO TINHA
CHÃO
NINGUÉM PODIA
DORMIR NA
REDE
PORQUE NA
CASA
NÃO TINHA
PAREDE
NINGUÉM PODIA
FAZER PIPI
PORQUE PENICO
NÃO TINHA
ALI
MAS ERA
FEITA
COM MUITO
ESMERO
NA RUA
DOS BOBOS
NÚMERO ZERO.
(Vinícius de Moraes)
Quem nunca cantou ou ouviu essa
música? Essa poesia aborda um tema que pode ser amplamente explorado nas turmas
de alfabetização: a moradia. Dessa forma, conversamos sobre a casa do poema, se
ela existe, se é imaginação do autor, o que tem de diferente de uma casa comum,
toda aquela problematização que estamos habituados a fazer nas aulas. Desenhos,
maquetes, leitura de outros poemas sobre moradia (intertextualidade) enriquecem
as aulas. Há um poema de Roseana Murray que “cai como uma luva” nesse momento:
Sem
casa
Tem gente que não tem casa,
Mora ao léu, debaixo da ponte.
No céu a lua espia
Esse monte de gente
Na rua como se fosse papel.
Gente tem que ter
Onde morar,
Um canto, um quarto,
Uma cama,
Para no fim do dia
Guardar o corpo cansado,
Com carinho, com cuidado
Que o corpo
É a casa
Dos pensamentos.
Não
importa que o aluno esteja no início de sua alfabetização, que ainda hesite,
gaguejando na leitura. O que importa é trabalhar a leitura com significado.
Nessa sequência de atividade, que parte do poema conhecido, da música divertida
de Vinicius, chegamos à criação de outra autora, dentro do mesmo tema, mas com
outra abordagem. Quantas perguntas, explorações e atividades podem surgir da
leitura do texto “Sem casa”? Uma infinidade de aprendizagens importantes e
significativas. Simples assim.
Mas, voltando a “Arca de Noé”. Outro poema:
A FOCA
QUER VER
A FOCA
FICAR FELIZ?
É PÔR
UMA BOLA
NO SEU
NARIZ.
QUER VER
A FOCA
BATER PALMINHA?
É DAR
A ELA
UMA SARDINHA.
QUER VER
A FOCA
FAZER UMA
BRIGA?
É ESPETAR
ELA
BEM NA
BARRIGA!
VINÍCIUS DE MORAES
Esse poema proporciona muitas
explorações. O professor deve explicar que os poemas têm uma estrutura própria:
são escritos em versos, rimados ou não, que se agrupam e formam estrofes. Aos
poucos, as crianças podem ir identificando as estrofes, circulando cada uma com
cores diferentes, contando quantas estrofes a poesia tem. Quando já estão
alfabetizadas, oferecer a cópia do mesmo texto com letras diferentes (imprensa
minúscula) ajuda na familiarização com as diversas representações de um mesmo
símbolo. E aí vêm elas, não poderiam ficar de fora:
AS BORBOLETAS
BRANCAS
AZUIS
AMARELAS
E PRETAS
BRINCAM
NA LUZ
AS BELAS
BORBOLETAS
BORBOLETAS
BRANCAS
SÃO ALEGRES E
FRANCAS.
BORBOLETAS AZUIS
GOSTAM MUITO DE
LUZ.
AS AMARELINHAS
SÃO TÃO
BONITINHAS!
E AS PRETAS
ENTÃO...
OH! QUE
ESCURIDÃO!
Vinicius de
Moraes
Com o poema acima, além da poesia,
podemos integrar ao trabalho outro tipo de texto: o informativo. Partindo do
nome do inseto, as crianças pesquisam sobre a borboleta, desenham e produzem
escritas espontâneas; atividades que podem ser estendidas aos demais poemas que
tratam de animais. A leitura de fichas informativas sobre os bichos são ideais e
utilizadas paralelamente, através da intertextualidade. Por exemplo, após ler o
poema “O elefantinho” (de Vinícius também), procede-se à leitura e destaque das
palavras, do título, do autor, passando pela identificação das estrofes, e aí
professora introduz uma ficha com informações sobre o animal:
Ficha do bicho
Nome popular: elefante
Onde vive:
África
Hábitos
alimentares: herbívoro. Alimenta-se de cerca de 300kg diários de vegetais.
Tamanho:7 ou 8 metros de comprimento e 4 metros de altura.
Peso: 7500Kg
Período de
gestação: 22 meses.
Tempo médio de
vida: 70 anos.
(Adaptado do
site www.suapesquisa.com.br)
Aqui os alunos entram em contato
com um tipo de texto que tem como objetivo informar sobre determinado animal.
Ou seja, a finalidade dele difere da finalidade da poesia. As informações
presentes nas fichas informativas proporcionam a abordagem interdisciplinar de outras áreas do
conhecimento: Matemática (nos numerais
que representam o peso, altura, tempo de gestação); Ciências (classificação dos
animais quanto a alimentação, habitat, mamíferos); Geografia (localização da
África no mapa do mundo). Mais adiante, as fichas informativas sobre animais
serão objeto de exploração e de outros exemplos de atividades.
O trabalho com gêneros textuais em
sala de aula é isso: contextualização, interdisciplinaridade,
intertextualidade, diversão e poesia, conhecimento e informação, cada qual
contribuindo para formar leitores e escritores autônomos.