sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

1º e 2º anos: A alfabetização e a diversidade de textos





            Atualmente falar sobre letramento não é novidade. Alfabetizar letrando é um tema que está presente nas conversas de professores, literatura especializada, mídia e programas do governo em geral. Na verdade, se cada alfabetizador estivesse convencido de que a leitura e a escrita são práticas sociais, não seria necessário o debate sobre alfabetizar e letrar, pois nessa perspectiva, os dois conceitos são indissociáveis. O professor que trata a língua como algo vivo e presente em todos os meios sociais não consegue visualizar essa ruptura. O que acontece é que, durante muito tempo, a escola concebeu o conhecimento como algo estanque e totalmente dissociado da realidade do bairro, da cidade, dos alunos, das famílias, da vida em geral. Em que outro local, além da escola, vão pedir a você que fique completando palavras com s ou z, sentado, passivamente, durante horas? Em que empresa solicitarão que você passe o dia todo copiando algo (que pode ser facilmente lido e acessado na internet) com letra bem bonita? E, inevitavelmente, em que livro, de qual autor relevante, que escreva para crianças, você poderia ler o texto a seguir:

O milho

O milho é amarelo e tem palha.
Julho colheu milho e deu ao seu filho.
O filho de Julho comeu o milho.

(Autor?)

         (Fica a dúvida: a grafia do substantivo próprio “Julho” com lh é intencional ou o autor do texto não sabe que julho, com lh,  é o nome do sétimo mês do ano?).
          Bem, em plena era da internet, com todos os livros maravilhosos e recursos disponíveis para ensinar a ler e escrever, alguns professores ainda escolhem (ou escrevem?) esse tipo de texto surreal apenas para “fixar” uma letra ou “dificuldade” ortográfica– no caso, devia ser o LH. Esse exemplo é radical, mas ilustra uma prática que ainda persiste no cotidiano escolar. Alguns educadores utilizam os chamados pseudotextos, resquícios do método fônico, o qual concebia a língua escrita como transcrição fiel da fala, reduzindo o ensino e a aprendizagem da mesma a questões mecânicas, sem reflexão, objetivando basicamente a “decifração do código linguístico” (como se a língua fosse um simples código a ser decifrado).
          Esse tipo de texto, além de inadequado, é totalmente desnecessário. Se o objetivo do professor era trabalhar palavras com LH, poderia ter utilizado o poema de Cecília Meireles:

BOLHAS

Olha a bolha d'água
no galho!
Olha o orvalho!
Olha a bolha de vinho
na rolha!
Olha a bolha!
Olha a bolha na mão
que trabalha!
Olha a bolha de sabão
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha
Olha a bolha!
Olha a bolha
que molha
a mão do menino:
A bolha da chuva da calha !
 Cecília Meireles 

          O poema de Meireles é rico em rimas e significados. Fica evidente que privilegiar textos desse tipo significa abrir um leque de possibilidades para ensinar. Acontece que as escolhas que fazemos dependem muito das concepções que temos a respeito do ensino e da aprendizagem, bem como a seleção do material utilizado nas aulas e sua consequente exploração.

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