domingo, 9 de fevereiro de 2014

Utilizando textos “de memória” na alfabetização




            Cada texto tem uma finalidade. Cada texto tem características próprias. É tarefa do professor consciente e competente selecionar bons textos tendo em mente o que quer ensinar com eles. Já no primeiro ano, os alunos devem identificar o título e o autor. Desse modo, nessa fase da aprendizagem podemos salientar o uso dos textos “de memória”, que são aqueles com os quais as crianças estão familiarizadas, que sabem “de cor”: músicas folclóricas, parlendas, quadrinhas, cantigas de ninar. Mesmo que não saibam ler, ao receber a cópia da música Boi da Cara Preta, por exemplo, os alunos podem acompanhar a leitura da professora e ir, aos poucos, identificando letras ou até palavras inteiras. Mais ainda: perceberão que entre as palavras existem espaços, algo que não existe no discurso oral. A seguir, demonstrarei alguns exemplos de atividades que derivam do uso da pequena música folclórica mencionada:

BOI DA CARA PRETA

BOI, BOI, BOI
BOI DA CARA PRETA
PEGA ESSA CRIANÇA
QUE TEM MEDO DE CARETA

            No início da alfabetização o ideal é que os textos utilizados estejam em letras maiúsculas, de imprensa, mais fáceis de ler e identificar. No caso de músicas folclóricas ou parlendas, geralmente não há autor. O professor deve explicar o porquê disso (textos de tradição oral nos quais não há como definir a autoria exata). Pois bem, o que fazer com esta singela musiquinha?
- Circular palavras faladas pela professora ou colocadas no quadro.
- Contar quantas vezes a palavra destacada se repete na música.
- Contar quantas letras tem a palavra destacada, quais são vogais e quais são consoantes.
- Identificar o título.
- A partir de palavras selecionadas, fazer listas de outras palavras com a mesma letra inicial (boi-bola-boneca)
- Identificar rimas.
- Elaborar pequenas charadas que levam a análise das palavras: “qual palavra começa com M, termina com O e tem quatro letras?”; “qual palavra tem 5 letras, começa com P e termina com A?”; e assim por diante.
         Como podemos perceber, são atividades específicas de alfabetização partindo do texto trabalhado. Nesse tipo de texto, quando aparecem rimas, devem ser amplamente exploradas. O aluno precisa perceber porque as palavras rimam, comparando que terminam com as mesmas letras. O poema a seguir, que as crianças conhecem em forma de música, é um exemplo:

O PATO

LÁ VEM O PATO
PATA AQUI, PATA ACOLÁ
LÁ VEM O PATO
PARA VER O QUE É QUE HÁ

O PATO PATETA
PINTOU O CANECO
SURROU A GALINHA
BATEU NO MARRECO
PULOU DO POLEIRO
NO PÉ DO CAVALO
LEVOU UM COICE
CRIOU UM GALO
COMEU UM PEDAÇO
DE JENIPAPO
FICOU ENGASGADO
COM DOR NO PAPO
CAIU NO POÇO
QUEBROU A TIGELA
TANTAS FEZ O MOÇO
QUE FOI PRA PANELA

VINICIUS DE MORAES

         Primeiramente, pedimos que identifiquem o título e o autor. Podem circular ou pintar os mesmos. Depois, a professora lê, enquanto os alunos acompanham com o dedo ou usando uma régua. Ao concluir a leitura do texto todo, pede que pintem a palavra “acolá” (escrever no quadro facilita). Pode questionar qual palavra está rimando com ela (no caso, a palavra “há”). Essas duas palavras que rimam são pintadas, pelas crianças, da mesma cor. Repetir esse processo com todas as rimas: caneco-marreco; cavalo-galo; jenipapo-papo; poço-moço (ter o cuidado de escolher cores diferentes em cada dupla). Escrever todas as duplas de palavras no quadro e pedir que as crianças circulem as letras que se repetem. Esse tipo de atividade proporciona a reflexão sobre a escrita. Os alunos aos poucos vão percebendo que palavras com terminações iguais são as palavras que rimam. Veja o exemplo:
TIGELA                                       POÇO
PANELA                                     MOÇO

CANECO                                    CAVALO
MARRECO                                  GALO

Outra atividade muito significativa que deriva das palavras retiradas de poemas, músicas e parlendas é a que denomino “palavra-sílaba-letra”. No exemplo do poema “O PATO” podemos destacar: pato – caneco – galinha – cavalo – galo – tigela – panela. Organizamos uma tabela com desenhos dessas palavras, na qual os alunos deverão escrever o “nome” dos desenhos, a quantidade de letras de cada nome e quantas sílabas cada um tem. Se necessário, utilizar o alfabeto móvel para formar as palavras antes de escrevê-las; as crianças podem ficar em duplas, o que facilita a troca de informações. Esse é um exemplo específico de exploração do texto na alfabetização. Veja a seguir:

(Inserir figuras)
PALAVRA
SÍLABAS
LETRAS

CAVALO
3
6

PATO
2
4

A mesma atividade, feita de forma isolada, não seria tão significativa. Utilizando palavras aleatórias, não selecionadas de um poema ou texto lido, constituiria apenas mais um “trabalhinho” a ser realizado pelas crianças, de forma solta, sem contextualização.

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