domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poesia






              A poesia, a arte de traduzir em palavras sentimentos e pensamentos, de fazer rir e chorar, de emocionar, é uma excelente forma de encantar os pequenos leitores, de mostrar que leitura é, antes de tudo, diversão e prazer. A literatura infantil no Brasil é de excelente qualidade, com ótimos autores, livros cuidadosamente produzidos, com ilustrações primorosas que atraem e fazem sorrir até mesmo o  mais sisudo dos adultos. Merece destaque o livro conhecido por todos, do grande poeta carinhosamente denominado “O poetinha”, Vinicius de Moraes: A Arca de Noé. Nele, encontramos não apenas bichos, mas os mais variados temas. Os versos da obra ficaram ainda mais populares pois ganharam versões musicais, na voz de grandes cantores brasileiros. Nada melhor do que cantar com os alunos, ler a poesia, falar sobre o autor, se divertir com as rimas. Trabalhar poesia é brincar com as palavras. Mas um brincar com objetivo. Reproduzo a seguir algumas poesias de Vinícius de Moraes e sugestões de atividades:

A  CASA

ERA  UMA   CASA
MUITO  ENGRAÇADA
NÃO  TINHA   TETO
NÃO TINHA   NADA
NINGUÉM  PODIA
ENTRAR  NELA   NÃO
PORQUE  NA    CASA
NÃO  TINHA   CHÃO
NINGUÉM   PODIA
DORMIR  NA   REDE
PORQUE  NA    CASA
NÃO  TINHA    PAREDE
NINGUÉM   PODIA
FAZER   PIPI
PORQUE   PENICO
NÃO   TINHA    ALI
MAS  ERA   FEITA
COM  MUITO   ESMERO
NA   RUA    DOS   BOBOS
NÚMERO   ZERO.
                       (Vinícius de Moraes)

            Quem nunca cantou ou ouviu essa música? Essa poesia aborda um tema que pode ser amplamente explorado nas turmas de alfabetização: a moradia. Dessa forma, conversamos sobre a casa do poema, se ela existe, se é imaginação do autor, o que tem de diferente de uma casa comum, toda aquela problematização que estamos habituados a fazer nas aulas. Desenhos, maquetes, leitura de outros poemas sobre moradia (intertextualidade) enriquecem as aulas. Há um poema de Roseana Murray que “cai como uma luva” nesse momento:

Sem casa

Tem gente que não tem casa,
Mora ao léu, debaixo da ponte.
No céu a lua espia
Esse monte de gente
Na rua como se fosse papel.

Gente tem que ter
Onde morar,
Um canto, um quarto,
Uma cama,
Para no fim do dia
Guardar o corpo cansado,
Com carinho, com cuidado
Que o corpo
É a casa
Dos pensamentos.

            Não importa que o aluno esteja no início de sua alfabetização, que ainda hesite, gaguejando na leitura. O que importa é trabalhar a leitura com significado. Nessa sequência de atividade, que parte do poema conhecido, da música divertida de Vinicius, chegamos à criação de outra autora, dentro do mesmo tema, mas com outra abordagem. Quantas perguntas, explorações e atividades podem surgir da leitura do texto “Sem casa”? Uma infinidade de aprendizagens importantes e significativas. Simples assim.

             Mas, voltando  a “Arca de Noé”. Outro poema:

A   FOCA

QUER    VER    A   FOCA
FICAR    FELIZ?
É    PÔR   UMA    BOLA
NO   SEU    NARIZ.

QUER    VER   A     FOCA
BATER    PALMINHA?
É    DAR    A     ELA
UMA    SARDINHA.

QUER   VER    A     FOCA
FAZER    UMA    BRIGA?
É    ESPETAR    ELA
BEM    NA    BARRIGA!
                         
                         VINÍCIUS DE MORAES

             Esse poema proporciona muitas explorações. O professor deve explicar que os poemas têm uma estrutura própria: são escritos em versos, rimados ou não, que se agrupam e formam estrofes. Aos poucos, as crianças podem ir identificando as estrofes, circulando cada uma com cores diferentes, contando quantas estrofes a poesia tem. Quando já estão alfabetizadas, oferecer a cópia do mesmo texto com letras diferentes (imprensa minúscula) ajuda na familiarização com as diversas representações de um mesmo símbolo. E aí vêm elas, não poderiam ficar de fora:

AS BORBOLETAS

BRANCAS
AZUIS
AMARELAS
E PRETAS
BRINCAM
NA LUZ
AS BELAS
BORBOLETAS

BORBOLETAS BRANCAS
SÃO ALEGRES E FRANCAS.

BORBOLETAS AZUIS
GOSTAM MUITO DE LUZ.

AS AMARELINHAS
SÃO TÃO BONITINHAS!

E AS PRETAS ENTÃO...
OH! QUE ESCURIDÃO!

Vinicius de Moraes

          Com o poema acima, além da poesia, podemos integrar ao trabalho outro tipo de texto: o informativo. Partindo do nome do inseto, as crianças pesquisam sobre a borboleta, desenham e produzem escritas espontâneas; atividades que podem ser estendidas aos demais poemas que tratam de animais. A leitura de fichas informativas sobre os bichos são ideais e utilizadas paralelamente, através da intertextualidade. Por exemplo, após ler o poema “O elefantinho” (de Vinícius também), procede-se à leitura e destaque das palavras, do título, do autor, passando pela identificação das estrofes,  e aí  professora introduz uma ficha com informações sobre o animal:

Ficha do bicho
Nome popular: elefante
Onde vive: África
Hábitos alimentares: herbívoro. Alimenta-se de cerca de 300kg diários de vegetais.
Tamanho:7 ou 8 metros de comprimento e 4 metros de altura.
Peso: 7500Kg
Período de gestação: 22 meses.
Tempo médio de vida: 70 anos.
(Adaptado do site www.suapesquisa.com.br)
        
            Aqui os alunos entram em contato com um tipo de texto que tem como objetivo informar sobre determinado animal. Ou seja, a finalidade dele difere da finalidade da poesia. As informações presentes nas fichas informativas proporcionam a abordagem  interdisciplinar de outras áreas do conhecimento:  Matemática (nos numerais que representam o peso, altura, tempo de gestação); Ciências (classificação dos animais quanto a alimentação, habitat, mamíferos); Geografia (localização da África no mapa do mundo). Mais adiante, as fichas informativas sobre animais serão objeto de exploração e de outros exemplos de atividades.
         O trabalho com gêneros textuais em sala de aula é isso: contextualização, interdisciplinaridade, intertextualidade, diversão e poesia, conhecimento e informação, cada qual contribuindo para formar leitores e escritores autônomos.

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